Em 1977, um grupo de jornalistas da Baixada Santista andava de saco cheio com as dificuldades para o exercício da profissão, entre as quais se destacavam a censura da ditadura militar e a mesmice do veículo em que trabalhavam. Mas não podiam dar-se ao luxo de deixar seus empregos. Eram tempos difíceis na economia. Então, decidiram criar um jornal onde pudessem , paralelamente à luta pela sobrevivência,dar vazão a seus devaneios, inclusive os jornalísticos. Um jornal catarse, enfim.
Deveria ser alternativo, fora dos padrões
estéticos e estilísticos dos jornais da época. Surgiram várias
sugestões, entre as quais a de um jornal só com assuntos funerários. Decidiu-se, por fim, por um semanário que só falasse de futebol amador e em linguagem meio varzeana. Surgia, assim, uma das experiências jornalísticas mais curiosas
já feitas na região: O Jornal da Várzea.
Nascido para circular somente em São Vicente,cobrindo o
futebol amador local, acabou espalhando-se
por toda a Baixada.Idealizado como uma brincadeira,
virou uma empresa rentável. Circulou de julho de 1977 a dezembro de 1978 e foi o único caso que conheço de um jornal que encerrou suas atividades
porque estava dando certo.
A EQUIPE
Os protagonistas dessa aventura da imprensa, todos então repórteres do jornal A Tribuna, foram: Manuel Alves Fernandes ( ainda hoje trabalhando na Tribuna) Ivo Roma Nóvoa( falecido recentemente), Ricardo Marques da Silva ( Ricardão,onde andas tu?), Márcio Calves ( hoje diretor de comunicação da Associação Comercial de Santos) Helena Oliveira ( Helena, onde andas tu?) e eu.
Os protagonistas dessa aventura da imprensa, todos então repórteres do jornal A Tribuna, foram: Manuel Alves Fernandes ( ainda hoje trabalhando na Tribuna) Ivo Roma Nóvoa( falecido recentemente), Ricardo Marques da Silva ( Ricardão,onde andas tu?), Márcio Calves ( hoje diretor de comunicação da Associação Comercial de Santos) Helena Oliveira ( Helena, onde andas tu?) e eu.
A idéia de um jornal de futebol amador foi minha, inspirado por uma coluna que fizera em um semanário onde fazia bico, chamada Chute na canela. E por causa disso, acabei me tornando o editor oficial do JV, cujo lema era " Um jornal sem frescura"
A PROPOSTA E O JEITO![]() |
| Logomarca da capa na vertical,títulos irreverentes: o JV era cheio de novidades para a época ( quatro décadas atrás). |
O jornal só tratava de futebol amador, com linguagem livre, bem humorada, mas levando o assunto a sério. Nas coberturas,dava prioridade aos jogos de finais de campeonato . As informações sobre os outros jogos das competições ou de partidas amistosas, eram passadas pelos diretores dos clubes ou pela Liga de Futebol Amador de São Vicente, que nos mandavam comunicados.
Não checávamos nenhuma informação. Identificávamos, no texto, o autor do comunicado, fonte delas . Mais ou menos assim: " Segundo o diretor fulano de tal, do Calunga FC, o jogo foi muito disputado...etc" ".
Os relatórios ,em sua maioria,vinham escritos à mão, em papéis de caderno e até de embrulho. Quando não entendíamos um nome,por exemplo, deixávamos isso claro: " O goleiro do Sãopaulinho , o Lamuel, ou Samuel, ou Daniel ( a letra está ruim e não está dando para entender direito) foi o herói do jogo".
Não havia preocupação com espaços sobrando ou faltando. Se não tínhamos matérias suficientes para encher uma página e sobrava um buraco, a gente deixava o espaço em branco, com um quadro em volta, e colocava a legenda:" este espaço está em branco porque não tinha mais matéria" . Ou então colocávamos uma foto qualquer ( de uma mulher bonita, um animal, uma paisagem, que pegávamos aleatoriamente em uma caixa de clichês)) e explicávamos: " Essa foto está aqui porque não tinha matéria para colocar no lugar". Certa vez, pus a foto de um orangotango, com a seguinte legenda: " O que esse bicho está fazendo aqui?"
Em outra ocasião,fizemos a cobertura de um jogo e, na hora do fechamento,constatamos que todas as fotos queimaram. O que fazer para tapar os buracos previamente demarcados para as imagens? Sem problemas: deixamos os espaços em preto e escrevemos, como legenda: "Aqui deveria ter foto. mas não tem por causa de barbeiragem do fotógrafo. Pedimos desculpa aos leitores e só não demitimos o fotógrafo porque ele não é nosso funcionário" ( o fotógrafo era o inesquecível e competente Manuel Estevam, profissional de A Tribuna, que colaborava com a gente, sem ganhar um centavo. Ele achou muita graça na história).
Tudo isso- uma verdadeira heresia se levarmos em conta a circunspecção com que se fazia jornais na época- era uma forma de não nos sobrecarregarmos de trabalho e preocupações ,e ganhar tempo. O jornal era fechado na terça-feira, rodado na quarta e quinta, para começar a ser distribuido na sexta à noite ( a data de circulação era o sábado).
Composição a chumbo e em máquinas linotipo; impressão em rotoplan, fotos feitas em clicheria; diagramação à mão, com cálculo matemáticos, tornavam a produção lenta, em comparação com hoje, em que computação gráfica, internet, essas coisas , tornam facílimo fazer um jornal. Acrescente-se que produzíamos o JV nas horas de folga.
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| No começo, circulava só em São Vicente.Esta é uma das edições de quando passou a circular em toda a Baixada Santista. |
COLUNAS E NOVELAS
Para prevenir quanto a períodos fracos de noticiário ,principalmente entre um campeonato e outro , criamos colunas.Entre elas:
Piadas idiotas : trazia piadas comuns,mas trocávamos os nomes dos personagens pelos nomes dos jogadores da várzea. Por exemplo: "Um dia, Fulano de Tal, lateral esquerdo do EC. Beira Mar,vinha pela avenida..."
Certa ocasião, quase fomos denunciados na polícia por causa dessa coluna. O caso não virou processo porque o delegado, nosso velho conhecido e admirador do jornal, convenceu o ofendido a não prosseguir com a queixa.
Caneladas- bastidores dos jogos, críticas, gozações, etc.
Prá saber: informaçoes em textos curtos , ocupava as duas páginas centrais.
Novelas: uma história em capítulos semanais, sendo cada capítulo escrito por um de nós, do jeito que bem entendesse. Era um Frankenstein literário. Eu criava o tema principal e fazia o primeiro capítulo. Depois, cada um escrevia o capítulo seguinte, sem nenhum compromisso com relação ao roteiro pré-estabelecido. Ninguém sabia como ou quando aquilo ia terminar. Uma das novelas que fez mais sucesso foi " As desventuras de Cafundó", que contava a saga de um centroavante varzeano.
Regras: coluna explicando as regras do futebol. Seu autor, o Ivo que, de futebol só sabia que a bola é redonda, copiava descaradamente um livro sobre o esporte.
Havia,ainda, o editorial,na página 2, sempre muito sério e sizudo, e a seção de cartas do leitor. Quando não tinha carta, gente inventava, seguida de uma resposta sacana. Nos editoriais, vivíamos criticando o futebol profissional. Procurávamos passar a convicção de que a raiz do futebol verdadeiro era várzea.
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| Esta edição saiu em um dia 7 de setembro, data da Independência do Brasil. Reparem no tom cívico da manchete. |
TRAJETÓRIA
O JV fez um sucesso danado, e até inesperado, de público e comercial . Na parte publicitária, começamos pedindo anúncios para prefeituras e câmaras municipais, valendo-nos subliminarmente de nossa notoriedade como repórteres de A Tribuna junto aos políticos ( reconheço,isso não foi muito ético).
Depois, começaram a surgir anúncios de estabelecimentos comerciais , muitos deles de dirigentes de clubes varzeanos.
A gráfica Danúbio, de São Vicente, que imprimia o jornal, possuia um time de futebol ( por sinal , muito ruim), cujos jogos divulgávamos. Os funcionários tinham um carinho muito grande pelo JV e, por isso, caprichavam no serviços gráficos, desde a composição ( em linotipo) até à montagem . O dono da oficina, o falecido José Fernandes, ficou tão apaixonado pelo JV que resolveu ser nosso sócio. Passou a cobrar só o preço de custo da impressão. Isso deu uma força danada.
Em poucos meses, atendendo a pedido do prefeito da época, Dorivaldo Loria Junior, o Dozinho, e da liga de futebol da cidade, começamos a circular em Praia Grande também. Depois, Cubatão e,por fim, Santos. Aí já tivemos que contratar uma empresa para distribuição.
O jornal era vendido ( e bem) em, bancas e, em finais de campeonato, e distribuido gratuitamente nos campos de futebol onde os jogos ocorriam.
O JV deu novo ânimo aos varzeanos e contribuiu para , pelo menos em São Vicente, revitalizar o mundo do futebol amador , que andava meio sem graça. A Liga , que estava com suas atividades praticamente paralisadas, elegeu nova diretoria; realizou novos campeonatos.Éramos frequentemente homenageados pelas entidades do futebol.A LFASV chegou a criar o Torneio JORNAL DA VÁRZEA.
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| No dia em que o JV foi lançado em Praia Grande. O prefeito da época, Dozinho, folheia a edição, sob o olhar atento do editor-chefe que, então, tinha bem mais cabelo do que hoje. |
O FIM IMPREVISÍVEL
Mas se tudo estava indo tão bem, por que acabamos com o jornal?
Foi uma decisão difícil, mas pensada. Nossos empregos principais eram no jornal A Tribuna. O Ivo,por exemplo, estava na empresa já havia 20 anos e ocupava o cargo de diretor da sucursal de São Vicente. O Maneco também, na sucursal de Cubatão.Eu já tinha uns 10 anos de empresa.A Helena era chefe da diagramação.
Houve um momento em que aquilo que começara como uma brincadeira,começou a incomodar o setor comercial da Tribuna. Tinha sentido.Fazíamos certa concorrência à firma da qual éramos funcionários.Nunca nos cobraram diretamente por isso, mas os recados subentendidos não paravam de nos chegar.
Aí, veio o impasse: ou pedíamos demissão dos empregos e tocávamos JV, ou fechávamos o jornal.Fechar foi a escolha mais sensata, pois não podíamos trocar nossos empregos por uma aventura. O Ivo e o Maneco eram casados, com filhos pequenos;eu era noivo,tinha acabado de entrar em um financiamento eterno de um apartamento, etc.
Mas como encerrar as atividades do JV assim, sem maiores explicações aos leitores e à comunidade da várzea, que tanto gostavam da gente?
Procuramos fazer isso sem choradeira. Era mês de dezembro e dissemos que o jornal só voltaria a circular após as festas de Natal e Ano Novo , " para descanso da companhia". Nunca voltamos.
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| Uma das muitas homenagens que o JV recebeu: o então-deputado Athiê Jorge Coury entrega ao editor uma placa de prata, outor- gada pela Liga de Futebol Amador de São Vicente |
Pasmem vocês que, feita a contabilidade, encerrada a firma, pagas as contas, etc, ainda sobrou um dinheiro até razoável . Ficamos tristes pelo fechamento, mas , em compensação,não saímos duros, nem com dívidas.E o jornal acabou cumprindo sua missão catártica: durante um ano e meio nos divertimos muito.
O JV foi,mesmo,uma coisa diferente. E inesquecível.





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