quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O maior pecado do Jó brasileiro

A Bíblia conta a história de Jó, o homem que foi alvo de disputa entre Deus e o Diabo. Este achava que Jó era temente e fiel a Deus apenas por ser um privilegiado, com uma bela família, riquezas  e saúde. Fosse um sofredor e, sem dúvida, segundo o Diabo, tornar-se-ia blasfemo.

O Jó bíblico: foi-lhe devolvido tudo o que perdeu
Então, o Criador decidiu por Jó à prova. Tirou-lhe, aos poucos, os bens, a família ( os 10 filhos morreram) e a saúde.Mas, diz a Bíblia, Jó, em nenhum momento, maldisse a sorte ou xingou Deus. O Diabo, então,deu-se  por vencido e Deus recompensou Jó, restituindo-lhe, em dobro, tudo o que havia perdido .Além de que, viveu até a idade de 120 anos.

A história do Jó bíblico é bem diferente da do Jó brasileiro, o mecânico pernambucano Marcos Mariano da Silva.

Marcos, o Jó brasileiro: perdeu tudo, inclusive a vida
Em 1976, aos  28 anos, Marcos foi preso, por assassinato. Era inocente. O equívoco ocorreu por ser homônimo do verdadeiro autor do crime. Mesmo assim, condenaram-no a 19 anos de prisão. Um ano depois,  a esposa  divorciou-se  dele e levou os filhos.

Passados seis anos, por acaso, a polícia descobriu o verdadeiro criminoso  e o mecânico foi solto.Tentou retomar a vida. Três anos depois, em uma blitz de rotina da polícia, prenderam-no de novo. A  Justiça não dera baixa em seu processo e ainda era considerado  um assassino procurado.  Ficou preso por mais 13 anos. Neste período, durante  rebelião no presídio, perdeu as duas vistas, por causa  dos gases jogados pela polícia  contra os detentos.

Durante um mutirão judicial, descobriu-se  que Marcos estava preso ilegalmente,  a exemplo de 21 mil outros casos  constatados no Brasil,  apenas  em 2011, pelo Conselho Nacional de Justiça. Foi solto, cego e tuberculoso. Não estava só porque, ainda na prisão, conhecera Lúcia Rodrigues, no dia em  que esta visitava  um  outro preso.Casaram-se e adotaram  uma criança quando ele retomou a liberdade.

Marcos procurou reparação judicial pelo que sofrera. Começou outra via crucis. Anos depois, o Tribunal de Justiça de Pernambuco decidiu que  teria direito a uma pensão mensal de R$ 1,2 mil e uma indenização de R$ 2 milhões. Isso mesmo:o sofrimento de Marcos, para o Judiciário brasileiro, vale, por mês, quatro vezes menos  do que o ex- ministro do Trabalho, Carlos Lupi, recebia como funcionário fantasma da Câmara dos Deputados;  e a indenização é menos de um terço do valor do apartamento comprado pelo ex-ministro da Casa Civil,  Antonio Palocci, com dinheiro supostamente obtido mediante tráfico de influência.E mais: o mecânico só recebeu metade da indenização e, assim mesmo, em 2009.

No dia 22 de novembro último, seu advogado  telefonou-lhe, eufórico. O Egrégio (?) Tribunal de Justiça de Pernambuco liberara o outro R$ 1 milhão da indenização.  Marcos transmitiu a notícia à esposa e foi dormir. Não acordou. Um infarto fulminante  matou-o naquela mesma noite.

Marcos  foi vítima  do mesmo sistema judiciário que não consegue condenar, por exemplo, o ex-governador   Paulo Maluf,  procurado pela Interpol  por  desvio de milhões de reais dos cofres públicos .É o sistema que levou  10 anos para por na cadeia o poderoso jornalista Pimenta das Neves  , assassino  confesso  da ex-namorada, mesmo após  ter sido condenado  pelo Tribunal do Juri (deverá ficar livre em breve, favorecido por  benefícios judiciais, entre eles os relacionados  à idade avançada).

O Jó bíblico, segundo as Escrituras, nunca tinha pecado perante Deus: era um justo. Marcos, o Jó brasileiro, cometeu o maior dos pecados perante a Justiça brasileira:era um pobre.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Jornais impressos versus o resto


Em recente tarde de domingo, o Corintians ganhou importante jogo contra o Atético de Minas Gerais por 2 a 1, com gol de Adriano.Milhões de pessoas souberam disso à noite ,pela TV,  internet, pelo rádio. Pois bem: na segunda-feira, portanto com pelo menos oito horas de atraso, as primeiras páginas dos jornais impressos  anunciavam exatamente isso: Corintians ganha do Atlético com gol de Adriano.

É esse tipo de coisa que pode decretar o rápido  fim do jornal impresso e não a simples concorrência tecnológica.Tenho lido com frequência que o jornal impresso deve  ter textos curtos, boa programação visual,fotos maravilhosas, imagens  altamente  definidas, para sobreviver à nova era da informação. Tudo isso é importante, mas não são armas para concorrência direta com a TV e a internet.

A instantaneidade e o visual não devem ser o campo de batalha do jornalismo impresso para resistir à supremacia  de  outros  tipos de mídia.

A arena ideal dessa guerra, para os impressos, deve ser o conteúdo, não a forma.A rapidez da internet não convive bem com a análise, a reflexão, o aprofundamentro dos fatos.Para isso, ela precisa de mais tempo, tanto quanto os jornais tradicionais.

Não sou sonhador a ponto de achar que os jornais impressos ocuparão, entre o público, os espaços da chamada mídia digital. Mas manterá preferência entre as milhões de pessoas que gostam de conhecer  bem mais  sobre o que acontece à sua volta, além daquela meia dúzia de  linhas do site de notícias; ou daqueles segundos do noticiário televisivo.É gente que não se contenta apenas em saber que o Corintians ganhou do Atlético, com gol de Adriano, mas de como isso ocorreu, as consequências deste acontecimento; as correlações entre este fato e outros etc.

É claro que , para isso, o nível técnico,  intelectual e cultural dos jornalistas dos veículos impressos  deve ser levado em conta. A grande  ameaça à sobrevida desses jornais , a meu ver, ainda é o despreparo dos profissionais que nele atuam. Pelo quê, diga-se a bem da verdade, a maioria não é culpada.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Uma flechada certeira

O primeiro volume da série


Não há dúvidas de que vivemos a era do vídeo. As pessoas passam mais tempo diante de um monitor do que de qualquer outra coisa. Creio ser essa uma das principais razões pelas quais
 hoje se lê muito pouco. E, quando se fala em leitura de livros, o problema  fica mais grave.
A dificuldade das crianças, em fase escolar, para ler  textos mais longos preocupa os pais. É claro. A falta de hábito  da leitura  tira-lhes a concentração, a capacidade de  abstração e  de imaginar, pois os  vídeos fornecem-lhes, sem maior esforço, imagem e som. Decorre  disso  a dificuldade para  desenvolver raciocínios mais complexos e até de se expressar, já que o vocabulário fica restrito.

Bibliófilo assumido, eu   também andava meio preocupado com meu neto mais velho, o  Kamayo, de 13 anos, em razão de sua paixão por TV e computador.Quando  começou a se alfabetizar,  falava-lhe de livros  e ele retrucava : “ Mas se  posso ver na TV, para quê ler livro?” Nem de  história em quadrinhos o Kamayo  gostava.

Que diabos- eu pensava- será que ele será um videomaníaco ( o que, aqui entre nós, não é a melhor forma de um ser humano adquirir conhecimento e saber pensar)?

Até que um dia, o pai dele deu-lhe de presente  o livro  As ruínas de Gorlan, primeiro volume da série Rangers: a Ordem dos Arqueiros ( título original: Ranger`s apprentice)  do escritor australiano John Flanagan. Um catatau  de 300 páginas, sem figuras. Pois bem: o Kamayo, que não lia  nem gibi,  devorou-o  inteiro. O segundo volume  teve o mesmo destino. Resumindo: meu neto já leu  oito volumes da série ( que somados dão mais de 2 mil páginas) e, pasmem,  está relendo-os!

Foi além: recomendou-os a mim que, presunçoso, pensei: “  Vai ser um saco encarar  livro infanto-juvenil”. Mas, como não se nega nada a neto, comecei a ler. Já estou no sexto volume e gostando. Quando nos  encontramos, ficamos comentando as peripécias dos heróis , arqueiros medievais, que servem a um reino chamado Araluen.

John Flanagan
O próprio John Flanagan  idealizou  a série pensando em encorajar seu  filho, de 12 anos,a  gostar de ler livros.O primeiro volume  saiu  em 2004, na Austrália. Fez sucesso e  foi lançado nos Estados Unidos em 2005,depois,em outros países.  Os 10 volumes    da série ( no Brasil, está chegando o nono ), venderam mais de dois  milhões de exemplares  em todo mundo. E já se fala, é claro, no filme.

 Segundo Flanagan , suas histórias  buscam  mostrar que os heróis não precisam ser, necessariamente, grandes, nem fortes. O principal personagem, Will,é um adolescente recusado na escola  real de arqueiros por ser franzino. O livro também fala de valores como lealdade, amizade, respeito ao próximo, etc.

Portanto, se você quer  fazer  seu videomaníaco  filho,  neto , ou sobrinho, entrarem no maravilhoso mundo da leitura e dele não  sair , fica a dica. Mas, pelo  amor de Deus,   não vá ficar, depois,  brigando com o garoto para ver quem lê os volumes  primeiro.  











quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Benvinda " imprensa golpista"!

Uma das muitas charges
 com que a mídia chapa-branca
 costuma criticar a imprensa que
 denuncia ladrões
do dinheiro público
Cinco ministros do atual governo foram afastados por causa de corrupção e um sexto,  Carlos Luppi, do Trabalho,no momento em que escrevo, ainda não caiu, mas está , digamos, na boca da caçapa.

Chamo a atenção para a falsa percepção de que, agora sim,  a corrupção está sendo punida na esfera governamental. Nada disso. Todos os casos seguem o mesmo roteiro: a imprensa denuncia, o ministro tenta se defender publicamente,  surgem novas denúncias, ele  fica em posição insustentável e, só então, perde o cargo, assim como os demais funcionários do ministerio envolvidos nas acusações. Mesmo assim,para evitar-lhes constrangimentos, monta-se a farsa: pedem demissão e, na maioria dos casos, na transmissão do cargo, são elogiados pelos bons serviços prestados ao governo.

Destaque-se, ainda,  que as denúncias feitas pela imprensa não são de autoria de deputados  federais e  senadores,  em tese, agentes fiscalizadores do Poder Executivo. São cavadas pelos jornalistas, mesmo.

Não é preciso ser nenhum gênio para concluir que, se  não houvesse denúncia pela imprensa, não haveria demissão nenhuma e a roubalheira continuaria. Aliás, é relevante citar que todos os casos denunciados e os ministros expurgados procedem do governo anterior.

A nova/velha esquerda brasileira costuma qualificar de “ golpista” a imprensa que critica o atual sistema  de poder. Bom, se os golpes são direcionados  aos ladrões do dinheiro público, então,  seja bem vinda,” imprensa golpista” .


Ele comandou a agitação

Travassos: sem máscara, contra a ditadura
 Nós vivemos hoje  em uma Democracia.Alguém disse que a Democracia é o pior dos regimes, exceto os outros. Eu também acho que a pior Democracia é a Democracia nenhuma.

Na história recente do Brasil,  muita gente sacrificou-se para que tivéssemos esta Democracia.Uma delas foi Luiz Travassos, presidente da União Nacional dos Estudantes-UNE em fins dos anos 1960, o período mais duro da ditadura militar instaurada em 1964.

Travassos não lutava, mascarado, pelo direito de fumar maconha no campus da Pontifícia Universidade Católica-PUC-SP, onde cursou Direito.Foi,entre outras coisas, um dos organizadores da passeata dos 100 mil, realizada em junho de 1968, no Rio de Janeiro, contra a ditadura ( que, naquele tempo,prendia,torturava, deportava, exilava e matava os opositores).

A revista Realidade ( que a época tirava 1 milhão de exemplares por semana , coisa que nem a Veja consegue hoje , meio século depois)publicou matéria de capa, com Travassos, sob  o título “ Este moço comanda a agitação”.

Foi preso, pelo Exército, não pela PM , e não foi solto mediante fiança, paga pelo papai, mas  porque  foi um dos trocados  pelo embaixador americano, sequestrado pela guerrilha de esquerda.

Viveu 10 anos exilado em Cuba e na Alemanha. Em 1979, devido à  lei da  Anistia, voltou. Morreu em 1982,  no Rio de Janeiro.Atropelado por um automóvel.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A arrogância e o fim

Eles conquistam o poder  e tornam-se senhores de vida e da morte. Enchem-se de tesouros, enriquecem parentes ,  amigos e apoiadores.O custo disso é a miséria , a liberdade e as vidas   de milhões de pessoas. Passam a ser adulados por potentados do resto do mundo,interessados  em sua política e sua riqueza.Não demoram  a  considerar-se onipotentes; nada os atinge, nem os atingirá.Sentem-se imortais,  deuses, até. Não admitem ser contestados e, para evitar isso, prendem, torturam e matam.


Quando  olhamos para suas fotos, mortos, estraçalhados, vítimas do ódio que geraram, não conseguimos  evitar  a  pergunta: de que adiantou tanta prepotência? E o sofrimento que ela gerou em milhares de inocentes, que não será resgatado , por mais cruel que tenha sido seu justiçamento?

O pior é que outros Hilters, Saddans, Kadhafis, Mussolinis e Ceausescus continuarão surgindo. Farão sofrer e serão trucidados, no  ciclo  infindável  da maldade humana.

Kadhafi: após 42  anos como senhor todo- poderoso da Líbia, foi trucidado por rebeldes

Nicolau Ceausescu: ditador na Romênica entre 1965 e 1989: fuzilado por opositores




Sadan Hussein: tirano no Iraque por três décadas, enforcado pelos que o depuseram




Benito Mussolini: criador do fascismo italiano, inspirador de Hitler, foi fuzilado e pendurado em um posto de gasolina por revolucionários



Hitler, o maior dos monstros, criador do nazismo e causador da Segunda Grande Guerra: suicidou-se em um bunker e teve o corpo queimado. Uma mandíbula chamuscada é o que resta dele, hoje.