A Bíblia conta a história de Jó, o homem que foi alvo de disputa entre Deus e o Diabo. Este achava que Jó era temente e fiel a Deus apenas por ser um privilegiado, com uma bela família, riquezas e saúde. Fosse um sofredor e, sem dúvida, segundo o Diabo, tornar-se-ia blasfemo.
| O Jó bíblico: foi-lhe devolvido tudo o que perdeu |
Então, o Criador decidiu por Jó à prova. Tirou-lhe, aos poucos, os bens, a família ( os 10 filhos morreram) e a saúde.Mas, diz a Bíblia, Jó, em nenhum momento, maldisse a sorte ou xingou Deus. O Diabo, então,deu-se por vencido e Deus recompensou Jó, restituindo-lhe, em dobro, tudo o que havia perdido .Além de que, viveu até a idade de 120 anos.
A história do Jó bíblico é bem diferente da do Jó brasileiro, o mecânico pernambucano Marcos Mariano da Silva.
![]() |
| Marcos, o Jó brasileiro: perdeu tudo, inclusive a vida |
Em 1976, aos 28 anos, Marcos foi preso, por assassinato. Era inocente. O equívoco ocorreu por ser homônimo do verdadeiro autor do crime. Mesmo assim, condenaram-no a 19 anos de prisão. Um ano depois, a esposa divorciou-se dele e levou os filhos.
Passados seis anos, por acaso, a polícia descobriu o verdadeiro criminoso e o mecânico foi solto.Tentou retomar a vida. Três anos depois, em uma blitz de rotina da polícia, prenderam-no de novo. A Justiça não dera baixa em seu processo e ainda era considerado um assassino procurado. Ficou preso por mais 13 anos. Neste período, durante rebelião no presídio, perdeu as duas vistas, por causa dos gases jogados pela polícia contra os detentos.
Durante um mutirão judicial, descobriu-se que Marcos estava preso ilegalmente, a exemplo de 21 mil outros casos constatados no Brasil, apenas em 2011, pelo Conselho Nacional de Justiça. Foi solto, cego e tuberculoso. Não estava só porque, ainda na prisão, conhecera Lúcia Rodrigues, no dia em que esta visitava um outro preso.Casaram-se e adotaram uma criança quando ele retomou a liberdade.
Marcos procurou reparação judicial pelo que sofrera. Começou outra via crucis. Anos depois, o Tribunal de Justiça de Pernambuco decidiu que teria direito a uma pensão mensal de R$ 1,2 mil e uma indenização de R$ 2 milhões. Isso mesmo:o sofrimento de Marcos, para o Judiciário brasileiro, vale, por mês, quatro vezes menos do que o ex- ministro do Trabalho, Carlos Lupi, recebia como funcionário fantasma da Câmara dos Deputados; e a indenização é menos de um terço do valor do apartamento comprado pelo ex-ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, com dinheiro supostamente obtido mediante tráfico de influência.E mais: o mecânico só recebeu metade da indenização e, assim mesmo, em 2009.
No dia 22 de novembro último, seu advogado telefonou-lhe, eufórico. O Egrégio (?) Tribunal de Justiça de Pernambuco liberara o outro R$ 1 milhão da indenização. Marcos transmitiu a notícia à esposa e foi dormir. Não acordou. Um infarto fulminante matou-o naquela mesma noite.
Marcos foi vítima do mesmo sistema judiciário que não consegue condenar, por exemplo, o ex-governador Paulo Maluf, procurado pela Interpol por desvio de milhões de reais dos cofres públicos .É o sistema que levou 10 anos para por na cadeia o poderoso jornalista Pimenta das Neves , assassino confesso da ex-namorada, mesmo após ter sido condenado pelo Tribunal do Juri (deverá ficar livre em breve, favorecido por benefícios judiciais, entre eles os relacionados à idade avançada).
O Jó bíblico, segundo as Escrituras, nunca tinha pecado perante Deus: era um justo. Marcos, o Jó brasileiro, cometeu o maior dos pecados perante a Justiça brasileira:era um pobre.











